quinta-feira, 27 de outubro de 2016

É ASSIM PORQUE DEUS O QUIS



Em geral os argumentos usados pelos incrédulos são absurdos, mas um se sobressai por expressar uma grande cegueira e, sobretudo, orgulho. Trata-se de um argumento que se apresenta das mais variadas formas, mas que em essência consiste em dizer que uma coisa não pode ser de determinada maneira, pois se assim fosse seria irracional, cruel, desagradável e assim por diante. Baseando-se nesse argumento os ateus dizem que Deus não pode existir, pois caso Ele existisse não teria permitido o mal; outros dizem que não existe inferno, pois seria incompatível com a misericórdia de Deus; e há até mesmo os que dizem que os milagres não podem ocorrer, já que Deus não quebraria Suas próprias Leis. Esconde-se por trás dessa esdrúxula argumentação a tentativa de julgar aquilo que simplesmente não está ao alcance do homem.
            É simplesmente óbvio que o homem não pode saber por que Deus fez as coisas de um determinado jeito e não de outro. Não é possível saber por que Deus fez o cavalo com quatro patas e não com dez, Deus executa a Sua Vontade Onipotente e ninguém pode aconselhá-lo: “Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos! Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe fez o dom para receber em troca? Porque tudo é dEle, por Ele e para Ele. A Ele a glória pelos séculos! Amém.” (Romanos 11, 33-36).
A maioria dos fenômenos que regem o universo nos são completamente incontroláveis, de modo que observamos impotentes as coisas acontecendo ao nosso redor e por maior progresso que a ciência tenha alcançado essa impotência continua, pois ela faz parte da essência das coisas e pertence a algo que não podemos alterar. Podemos sim realizar muitas coisas, mas não podemos alterar essencialmente a ordem que existe no universo, até porque somos parte dessa mesma ordem e não seus criadores. Não podemos fazer o olho ouvir ou os ouvidos verem. Não somos os criadores do nosso próprio ser e nossa liberdade nada tem a ver com onipotência, mas expressa também nossa impotência, pois a nossa liberdade não nos dá o poder de realizar irrestritamente a nossa vontade. Somos vasos nas mãos do supremo oleiro, sendo assim: “Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes?...” Isaías 45:9.
Quando um engenheiro constrói mal uma casa, quando um escultor não executa com a devida perfeição uma obra, enfim quando qualquer artífice não realiza bem o seu trabalho, podemos sempre avaliá-lo tendo como base um outro artífice da mesma categoria, sendo que o bom artífice serve como critério para que possamos julgar os demais. O mesmo não ocorre com o universo, pois só existe um único universo, de forma que não podemos buscar alhures elementos para uma comparação, logo quando o descrente tenta encontrar defeitos na ordem divina do universo está agindo com descabida pretensão. “Que haveis de comparar a Deus? Que semelhança podereis produzir dele?” (Isaías 40:18). Onde encontrará ele outro universo para impugnar este? Será obrigado a apelar para a própria fantasia, para os próprios desejos e assim será obrigado a comparar o único e real universo ao universo maravilhoso de sua insensata pretensão. Aí está delineado o velho princípio gerador de todo o pecado: “Subirei acima das nuvens, tornar-me-ei semelhante ao Altíssimo”; “...Vossos olhos se abrirão e sereis como deuses...”, cuja única resposta adequada é aquela dada por São Miguel Arcanjo: “Quem como Deus?”.
O caminho correto é saber em primeiro lugar como as coisas são e a partir disso tirar novas conclusões, e não tentar descobrir como é a realidade partindo do que nos seria mais plausível ou agradável. A lógica[1] e as nossas preferências, mesmo as mais nobres, não podem jamais descobrir como é a realidade, tampouco quando se trata da Realidade Divina. Por exemplo: ninguém jamais pode dizer que não acredita que uma árvore produz frutos azedos alegando que isso seria ilógico, ou alegando que isso seria desagradável, ou, mais absurdo ainda, que seria contra a misericórdia de Deus; essa questão é factual e para resolvê-la bastam os sentidos. O mesmo não ocorre com as coisas divinas.
            É impossível conhecer as coisas de Deus sem a Sua revelação, pois os objetos da Fé estão infinitamente acima da capacidade humana. Sendo assim nós devemos partir da Revelação e só depois usar a lógica para chegar a novas conclusões. Deus não nos convence com argumentos, mas com Sua autoridade e Poder; Deus não entra num diálogo com o homem para discutir Sua Doutrina, Ele a impõe. Obviamente Ele nos torna capaz de aceitar essa doutrina através de uma virtude chamada Fé, através dessa virtude nós conseguimos aderir firmemente a tudo o que ele nos revelou, pois Deus não pode Se enganar nem enganar-nos. Essa virtude não é um convencimento lógico-racional que nos é incutido por Deus, mas uma adesão que provém em parte da razão (que reconhece a pertinência de aderir à sublimidade daquilo que é revelado), e, sobretudo, provém da vontade. Através dos sacramentos, recebemos de Deus essa virtude teologal, a partir de então percorremos uma caminhada para aprender o conteúdo dessa Fé, esse conteúdo é a Doutrina propriamente dita.
A Doutrina nos dá então a conhecer os fatos a respeito da realidade divina. A partir deles podemos então formular novos raciocínios para tentar compreender o mundo à nossa volta, e não o contrário: tentar olhar o mundo à nossa volta para tentar compreender a realidade divina. É verdade que olhando ao nosso redor podemos conhecer algumas coisas sobre Deus, como sua existência, poder etc., mas como poderíamos, por exemplo, saber que Ele é Uno e Trino? Como poderíamos saber da Redenção? Dito isso, resulta claramente ser uma loucura querer inquirir as realidades divinas sem apoiar-se na Revelação.
            Para aqueles que duvidam que a Igreja Católica Apostólica Romana seja a única portadora dessa Revelação, basta estudar a sua história e ver com que dons extraordinários Deus cumulou a Sua Igreja, livrando-a das ímpias perseguições movidas pelos mais variados inimigos da Fé; como a adornou com exemplos da mais heróica santidade; como proveu os mártires com sobrenatural fortaleza; e finalmente contemplar os extraordinários milagres realizados por Deus para confirmar que Ele está presente e vivo na Sua Única Igreja. Obviamente esse simples estudo é apenas um auxílio, pois a conversão é obra do Espírito Santo, por isso o que se recomenda é oração, vida de virtudes e muita busca, pois Jesus disse que aquele que procura encontra.
            Nem sempre as coisas são como nós queremos, só Deus é Onipotente. Às vezes os incrédulos são tentados a perguntar com soberba o porquê de certas regras morais, o porquê do inferno, o porquê do sofrimento. Mas a realidade esta aí para nos lembrar que a morte virá, desprezando completamente a revolta que contra ela se possa nutrir; a doença virá independente de aceitação e Deus nos julgará impreterivelmente. Nem Lúcifer, que antes da queda era um dos anjos mais poderosos, pôde alterar os desígnios de Deus, sua revolta só serviu para sua condenação e dos que o seguiram (inclusive homens). Diante disso resta escolher entre amar a Deus por toda a eternidade ou a condenação. Nada mais justo, pois quem rejeita o Bem Supremo, não pode possuir nenhum bem, e merece todos os males.
            Chesterton com toda a elegância e brilhantismo que lhe é peculiar nos diz em seu livro “Ortodoxia” que a ordem que encontramos no universo demonstra não uma automática necessidade como querem os ateus deterministas, mas uma vontade. E que vontade poderia ser senão a Vontade Divina? O mundo moderno, iludido pelo progresso científico, não consegue ver o mistério que o universo contém, quer tudo enquadrar em leis necessárias e assim parece acreditar que será capaz de explicar tudo. Chesterton refuta essa mentalidade de modo poético e põe a descoberto sua fragilidade, pois a repetição dos fenômenos não prova uma necessidade automática, mas uma vitalidade que ele compara com a vitalidade de uma criança que repete inúmeras vezes a mesma brincadeira, segundo ele talvez Deus seja suficientemente forte para exultar na monotonia. Além disso, a repetição de algo misterioso não nos deveria levar a uma familiarização, mas a um fascínio ainda maior. O fato de o sol nascer uma vez seria assombroso, mas o fato de o sol nascer inúmeras vezes é ainda mais assombroso. A ciência não pode explicar esses mistérios, tenta apenas enquadrá-los dentro de determinadas leis, mas não pode explicar o seu porquê. E por que não o pode? Simplesmente porque trata-se de uma vontade divina, e ao final de todas as séries de perguntas a resposta final será sempre: “porque Deus quis assim.”
Eis então um grande ensinamento e, mais que isso, um antídoto contra o orgulho e esse seu fruto amargo que é o ateísmo: não olhar o mundo com os olhos decrépitos do determinismo, mas com o olhar inocente e vivaz das crianças, com aquele olhar que é capaz de exultar nas maravilhosas repetições com que todos os dias somos contemplados.


[1] Não quero afirmar com isso que o conteúdo da fé contraria a razão, mas simplesmente que a transcende.