quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O QUE SIGNIFICA RENUNCIAR?

        

           A ordem que o evangelho nos dá de renunciarmos a nós mesmos é tão difícil de entender quanto de praticar. A fim de compreender e praticar melhor essa ordem, escrevi este texto, pois em geral a escrita nos obriga a uma sistematização. Que a graça de Deus venha em meu socorro.
            Dentre tantas partes do evangelho que nos dão essa ordem, gostaria de destacar duas. A primeira diz o seguinte: “Em seguida, convocando a multidão juntamente com seus discípulos, disse-lhes: ‘Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.’” (Marcos 8, 34). Essa renúncia não pode significar a aniquilação completa de nossa individualidade, pois não se trata de uma doutrina panteísta. A Sã Doutrina nos ensina que a união íntima do homem com Deus, na eternidade, não significa a absorção da individualidade humana pela divindade, senão a fruição e o repouso do homem no seu fim último que é Deus. Pois bem, se essa renúncia não pode ser a aniquilação da individualidade, o que pode ser então?
               Tentarei, com a graça de Deus, responder do melhor modo possível.
            Somos chamados a entregar, através de um ato de fé, a Deus toda a nossa vida: nossas faculdades, nossos bens, nosso tempo, nosso trabalho. Não é outra coisa o que ensina o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luis Maria Grignion de Montfort. Mas devemos lembrar que essa entrega não anula nossa liberdade, nem nossa consciência. O que significa então a renúncia pedida no evangelho? Segundo o que consegui entender, essa renúncia significa o seguinte: entregar tudo a Deus é estar disposto a viver nossas vidas submetendo-nos à sua lei em todas as questões, para isso deveremos contar com a graça de Deus que secundará nossos esforços em buscar essa lei e segui-la. Deus nos ajudará com sua graça, com as inspirações do Espírito Santo e com o fortalecimento da nossa própria inteligência.
            Vou agora ilustrar minha resposta com exemplos:
                1- A Igreja nos manda abster-se de carne na sexta feira. Mesmo que você goste muito de carne você se abstém, pois sabe que é isso o que Deus te manda. Nesse caso você renunciou ao seu desejo para seguir o que Deus ordena.
              2- A Igreja ensina que Jesus Cristo está presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade na hóstia consagrada. Esse mistério é muito superior à nossa capacidade, mas você crê, porque assim manda a Igreja. Claro que também temos a obrigação de buscar e pedir a Deus que nos ajude a entender cada vez melhor esse mistério, mas mesmo não entendendo completamente já cremos, pois é um dogma e como tal está apoiado na autoridade do próprio Deus. Ao crer nisso renunciamos ao nosso próprio entendimento.
                3- Se tua mãe te manda lavar a louça, você obedecerá, mesmo preferindo não fazê-lo e assim estará renunciando à sua própria vontade, pois estará fazendo isso para obedecer o mandamento divino de honrar pai e mãe.

            A disposição interior de fazer tudo para a glória de Deus e o ato de entregar a Ele a cada momento nossas ocupações também faz parte da renúncia. Que a nossa vontade seja que a vontade de Deus se realize é a essência da renúncia e a forma mais completa de praticá-la. Mas isso exige de nós uma decisão forte, um esforço contínuo, atos concretos de renúncia e muita oração implorando a graça de Deus.
            As verdades da religião podem sobrepujar nossa capacidade racional, mas nunca estarão em desacordo com a razão. Logo, a negação de si mesmo que praticamos para seguir Nosso Senhor, de modo algum nos colocará em dilemas morais, pois é a própria razão que, dando-se conta da nossa fraqueza, nos persuade a entregar-nos a Deus.
            A segunda parte do evangelho que gostaria de destacar é simplesmente a continuação da primeira. Diz o seguinte: “Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, salvá-la-á” (Marcos 8, 35).
            Toda a doutrina da Igreja e sua ação têm como fim último a salvação das almas. Seria estranho que uma de nossas obrigações fosse não querer salvar a própria vida. No referido versículo, portanto, é óbvio que a palavra “vida” é usada em dois sentidos diferentes. Para tentar explicitar o sentido desse versículo vou reescrevê-lo de um modo mais longo colocando a interpretação que consegui formular: “Porque o que quiser salvar sua vida mortal, apegando-se aos atrativos passageiros desse mundo e colocando neles sua esperança, perderá a Vida Eterna; mas o que perder sua vida carnal, no sentido de renunciar aos atrativos desse mundo, por amor a Jesus Cristo, salvará sua alma e alcançará a vida eterna.”
            Essa vida mortal e passageira que nos foi confiada não deve estar direcionada ao gozo carnal, mas à penitência, à oração, ao trabalho, ao serviço ao próximo. Existe o desfrute lícito dos bens desse mundo, mas isso não deve nos desviar do nosso fim principal, pelo contrário, deve sempre a este se ordenar. Erramos gravemente, portanto, quando a todo custo nos desviamos do jejum com medo de prejudicar a saúde, quando a sacrificamos consideravelmente mais para satisfazer um prazer; nunca fazemos uma vigília para não estarmos cansados no outro dia, mas perdemos o sono para estar bebendo até tarde com os amigos. Consideramos sempre o que nos é mais agradável, raramente nos sacrificamos nem nos mortificamos. Em suma, acabamos por não morrer a nós mesmos e por um amor desordenado (um amor de si contra si) buscamos salvar a própria vida, e que vida é essa que queremos salvar? A vida mortal. O fato é que, entre essas duas vidas: a mortal e a Eterna, só uma pode ser salva: a Eterna. A mortal perder-se-á por si mesma, pois está sujeita a ação do tempo. Logo, a escolha é: ou você perde as duas tentando inutilmente salvar a mortal; ou você ganha a Vida Eterna, sacrificando conscientemente a vida mortal, contando para isso com a graça de Deus.
            Esse ponto da vida espiritual que aqui estou tratando é contemplado nas principais obras católicas, e sempre é um ponto central. Gostaria de brevemente falar sobre algumas delas para ajudar o leitor a entender ainda melhor essa questão, enquanto ao escrever eu próprio tento por minha vez entendê-la:
            1- FILOTÉIA – SÃO FRANCISCO DE SALES – Essa obra é uma das mais extraordinárias que existem. Os conselhos são muito inspirados, sábios e de fácil entendimento. Animam-nos a praticar os preceitos religiosos, pois tudo ali é tratado de forma simples e amena. Há também várias meditações, orações e considerações que nos ensinam a rezar, a fazer penitência e a meditar.
            No prefácio, São Francisco de Sales escreve: “Nisto consiste, pois, a essência da devoção verdadeira, que suplico à majestade divina de conceder a mim e a todos os membros da Igreja, à qual quero submeter para sempre meus escritos, minhas ações, minhas palavras, minha vontade e meus pensamentos.” Aí está como deve falar um bom católico!
            2- A ALMA DE TODO APOSTOLADO – JEAN BAPTISTE CHAUTARD – Nessa obra, Chautard deixa claro que a alma de todo apostolado é a oração e a meditação, e que seria erro grave achar que qualquer obra possa dar frutos se não tiverem ligadas a uma forte vida espiritual de oração e meditação, pois é por essas duas práticas que nos tornamos íntimos de Deus, que é o único que nos pode conceder as graças necessárias para que nossos esforços apostólicos frutifiquem. Como disse Nosso Senhor: “Sem mim nada podeis fazer”. Chautard diz na décima primeira verdade – primeira parte – “Farei, durante os meus retiros, um sério exame de consciência para saber: se estou convicto da nulidade da minha ação, e da sua força, quando unida à ação de Jesus; se excluo, implacavelmente qualquer vaidade, qualquer autocontemplação, na minha vida de apóstolo; se me mantenho numa desconfiança absoluta de mim mesmo; e se peço a Deus que dê vida às minhas obras e me preserve do orgulho, primeiro e principal obstáculo para receber o seu auxílio.”
            3- IMITAÇÃO DE CRISTO – TOMÁS DE KEMPIS – Outra obra extraordinária que também aborda diversas vezes o tema da renúncia. Listo a seguir alguns dos principais ensinamentos que encontrei nesse clássico:
·         Melhor ser ignorante e virtuoso que instruído e orgulhoso;
·         Desprezar o mundo e suas pompas;
·         Conhecer a si mesmo e desprezar a si mesmo;
·         Ser humilde;
·         A graça do entendimento das coisas divinas vem de Deus e não da inteligência humana;
·         A importância do silêncio e do recolhimento;
·         A vida virtuosa traz sabedoria.
·         Deve-se procurar o aconselhamento de alguém mais sábio.
·         Renunciar à própria vontade.
·         A vida virtuosa traz paz.

No capítulo 8 do livro 3, podemos encontrar este lindo trecho: “Mas se me tiver por vil e me aniquilar, deixando toda a vã estima de mim mesmo, e me reduzir a pó, que sou na verdade, ser-me-á propícia a vossa graça, e a vossa luz há de vir em meu coração, e todo sentimento de amor próprio, por mínimo que seja, perder-se-á no abismo do meu nada e perecerá para sempre... perdi-me, amando-me desordenadamente; mas, buscando a vós unicamente, e amando com puro amor, a mim me achei e a vós também, e este amor me fez ainda mais aprofundar-me em meu nada.”
Podemos também encontrar o seguinte no capítulo 32 do livro 3: “ - Jesus: Filho, não podes gozar perfeita liberdade, enquanto não renunciares  inteiramente a ti mesmo.... deixa tudo e tudo acharás; renuncia à cobiça, e terás sossego. Pondera isso, e, quando o praticares, tudo entenderás.
O capítulo 37 do livro 3, por sua clareza e completa harmonia com o evangelho, merece ser citado na íntegra: “ - Jesus: Filho, deixa-te a ti, e acharás a mim. Despe tua vontade e teu amor próprio, e sempre tirarás lucro. Porque, logo que te entregares a mim sem reservas, se te acrescentará a graça.
 - A alma: Senhor, em que devo renunciar-me e quantas vezes?
 - Jesus: Sempre e a toda hora, tanto no muito como no pouco. Nada excetuo, mas quero te achar despojado de tudo. De outra sorte, como poderás ser meu e eu teu, se não estiveres, exterior e interiormente, desapegado de toda vontade própria? Quanto mais prontamente isso fizeres, tanto melhor te acharás, e quanto mais pleno e sincero for teu sacrifício, tanto mais me agradarás e maior lucro terás.
Alguns há que se entregam a mim, mas com alguma reserva, porque não tem plena confiança em Deus e por isso tratam de prover as próprias necessidades. Outros, a princípio, tudo oferecem, mas depois, combatidos pela tentação, voltam-se novamente às próprias comodidades, e eis porque quase não progridem nas virtudes. Estes nunca chegarão à verdadeira liberdade do coração puro, nem à graça de minha doce familiaridade, enquanto não renunciarem de todo a si mesmos, oferecendo-se em cotidiano sacrifício a Deus, sem o que não há nem pode haver união deliciosa comigo.
Muitas vezes te disse e agora te torno a dizer: deixa-te, renuncia a ti mesmo, e gozarás de grande paz interior. Dá tudo por tudo, não busques, não reclames coisa alguma, persevera, pura e simplesmente, em mim, e me possuirás. Terás livre o coração e as trevas não te poderão oprimir. A isto te aplica, isto pede, isto deseja: ser despojado de todo o amor-próprio, para que possas seguir nu a Jesus desnudado, morrer a ti mesmo e viver eternamente. Então se dissiparão todas as vãs imaginações, penosas perturbações e supérfluos cuidados. Logo, também, desaparecerá o temor demasiado, e morrerá o amor desordenado.”
Por fim cito ainda um trecho do capítulo 56 do livro 3: “Quanto mais saíres de ti mesmo, tanto mais poderá chegar-te a mim. Assim como o não desejar coisa alguma exterior produz paz interior, assim o desprendimento interior de si mesmo causa a união com Deus... Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus 19, 17). Se queres conhecer a verdade, crê em mim. Se queres ser perfeito vende tudo (Mateus 19, 21). Se queres ser meu discípulo, renuncia a ti mesmo. Se queres possuir a Vida bem aventurada, despreza a presente. Se queres ser exaltado no céu humilha-te na terra. Se queres reinar comigo, carrega comigo a cruz, porque só os servos da cruz acham o caminho da bem aventurança e da luz verdadeira.”
4- EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS – SANTO INÁCIO DE LOYOLA – Nesse livro Santo Inácio nos ensina um verdadeiro método para progredir na vida espiritual. Método esse baseado em diversos conselhos, meditações e exercícios espirituais. Logo antes de começar os exercícios da primeira semana, lê-se um pequeno texto intitulado “Princípio e Fundamento”, ali lê-se o seguinte: “O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor e, assim, salvar-se. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ser humano para o ajudarem a atingir o fim para o qual é criado. Daí se segue que ele deve usar das coisas tanto quanto o ajudam para atingir o seu fim, e deve privar-se delas tanto quanto o impedem. Por isso é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é permitido à nossa livre vontade e não lhe é proibido. De tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que enfermidade, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida breve, e assim por diante em tudo o mais, desejando e escolhendo somente aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados.”
5- TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM – SÃO LUIS MARIA GRIGNION DE MONTFORT – Quem ainda não tem esse livro, trate de providenciá-lo e colocar em prática o que ali está escrito. Consagrar-se à Nossa Senhora e viver essa consagração é o meio mais fácil, seguro e piedoso de progredir na vida espiritual. São Luis explica com maestria as razões teológicas e os fundamentos doutrinais para entregarmos todos os nossos méritos a Jesus por intermédio das mãos puríssimas de Nossa Senhora.
No capítulo II, artigo 3, São Luis nos ensina: “Para despojar-nos de nós mesmos, é preciso conhecer primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo o bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo o tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniqüidade em todo lugar...Em segundo lugar, para despojar-nos de nós mesmos, é preciso que todos os dias morramos para nós, isto é, importa renunciarmos às operações das faculdades da alma e dos sentidos do corpo, precisamos ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-nos das coisas desse mundo como se não o fizéssemos... Se não morrermos a nós mesmos, e se as mais santas devoções não nos levarem a essa morte necessária e fecunda, não produziremos fruto que valha, nossas devoções serão inúteis, todas as nossas obras de justiça ficarão manchadas por nosso amor próprio e nossa própria vontade, e Deus abominará os maiores sacrifícios e as maiores ações que possamos fazer.”
Como se vê a renúncia de si mesmo é condição sine qua non para a prática da verdadeira religião (catolicismo), a isso no leva tanto o evangelho quanto o coro harmônico dos escritores espirituais. Obviamente também o catecismo nos leva a isso. De fato, não é possível obedecer aos mandamentos sem renunciar a si mesmo, pois o pecado original, ao tornar, de certa forma, nossa natureza em inimiga de Deus, tornou-nos, ao mesmo tempo, avessos ao cumprimento de tudo aquilo que é bom. Logo, para cumprir as exigências de Deus, somos obrigados a essa renúncia, e quando pecamos é simplesmente porque não quisemos renunciar a nós mesmos. Nossa natureza corrompida nos inclina sempre ao mal; quando, por um amor desordenado a nós mesmos, cedemos a ela, caímos no pecado. Além disso, temos outros dois inimigos: o mundo e o demônio, mas certamente a corte celestial que nos socorre é superior a tudo isso.
Todas as quedas narradas pela Bíblia são devidas a essa falta de renúncia: Lúcifer caiu por não renunciar, da mesma forma Adão e Eva; Caim, Judas e todos os demais pecadores da história se ressentem desse mal que é a recusa de renunciar a si mesmo. Por outro lado, todos os justos da história demonstram uma extraordinária disposição para renunciar: Abraão que renuncia a seu próprio filho, Noé que renuncia à sua honra, Nossa Senhora que diz “Sim” a Deus, Nosso Senhor que roga ao Pai que seja feita a vontade dEle.
O significado profundo dessa renúncia e todas as suas conseqüências não posso eu esclarecer por completo. Espero que esse pequeno trabalho possa ter ajudado aqueles que procuram sinceramente fazer a vontade de Deus. Para todos nós que estamos começando agora nossa caminhada espiritual, tenho certeza de que as práticas a seguir muito nos ajudarão:
1- Ler e meditar sobre as cinco obras que citei, sem esquecer o Evangelho. Todas elas tratam do assunto de modo magistral.
2- Fazer penitência: jejum, vigílias, abster-se de carne mais vezes do que manda a Igreja, deixar de comer alguma coisa de que se gosta, sacrificar algum lazer para poder se dedicar à oração e à meditação ou alguma outra obra de piedade. Além de praticar obras de misericórdia. Se ficarmos atentos o Espírito Santo nos inspirará no tipo de penitência e obras que devemos fazer.
3- Ser disciplinado nas orações. Rezar várias vezes por dia, sem esquecer o terço.
4- Resignar-se à vontade de Deus nos contratempos da vida, e entregar todas as vicissitudes a Deus como forma de penitência e reparação por nossos pecados.
5- Consagrar-se a Nossa Senhora pelo método de São Luis Maria Grignion de Montfort.

Esses passos simples serão um bom começo para atingirmos a perfeita renúncia que Deus nos pede. Imploremos a Ele a graça de atingirmos tão sublime estado, pois sem Ele nada podemos fazer. Ave Maria!