quarta-feira, 19 de setembro de 2012

As Greves e a Justiça.


                
               Muitas greves despontam nesses últimos dias, sobretudo no setor público. Isso nos dá ensejo de refletir, na medida do possível, de modo desapaixonado, tentando compreender um pouco o ser humano e seus anseios, sua natureza e também a sociedade. No calor da batalha, por aquilo que alegam ser seus direitos, os grevistas, nem sempre afeitos à filosofia e à reflexão, mas movidos por interesses imediatos e guiados por sindicalistas, não parecem refletir sobre suas motivações íntimas (embora eu não possa dizer isso com certeza absoluta), nem mesmo nas consequências de sua luta, ou na justiça de sua causa. Gostaria, portanto, de nesse texto que escrevo, ajudar nessa reflexão, pois nunca vi estes aspectos (que exporei em seguida) serem abordados pelas discussões que se fazem a esse respeito. Aliás, a discussão beira a uma simplicidade assustadoramente elementar, e consiste mais ou menos no seguinte: 1- para a melhor qualidade dos serviços prestados à sociedade pelo estado, os funcionários devem ganhar mais. 2- o nosso salário está defasado. 3- precisamos de um plano de carreira. 4- o governo não cumpriu o combinado. 5- o serviço público está sendo desmontado. Na verdade isso não é uma discussão, mas apenas reivindicações. Quem delas faz parte, geralmente não reflete a fundo, apenas "luta", pois toma a justiça como algo facilmente identificável e obviamente ela está do seu lado, o lado dos “oprimidos” e “injustiçados” trabalhadores públicos.
            Poderíamos facilmente aderir e apoiar a greve de quem quer que fosse, caso se tratasse de uma penúria manifesta, isto é, caso estivessem em clara situação de miséria ou trabalhando de um modo claramente prejudicial à saúde. Mas devemos ficar em dúvida se apoiamos ou não quando os vemos, durante a greve, saudáveis e felizes jogando baralho, comendo pipoca, ouvindo músicas medíocres, dançando etc. Esse tipo de “vagabundagem” durante a greve atrai o minha desconfiança por dois motivos: primeiro porque não há uma situação de penúria nem de longe, vê-se sim uma relativa prosperidade e condições econômicas razoáveis, e não estou nem um pouco de acordo em apoiar interrupções de trabalho de quem anda de carro, tem moradia digna, veste-se bem, está saudável, trabalha uma jornada normal etc. Segundo: o comportamento durante a greve, como a ostentação do ócio imoral, a festa, a bagunça, também não atraem a simpatia de um observador criterioso.
            No caso dos professores, a situação é um pouco mais ridícula. Durante semanas culturais feitas nos colégios, incentivam as mais absurdas manifestações culturais, como o rock, sertanejo universitário, danças pornográficas. Depois lá estão eles, dizendo em altas vozes que a educação não é valorizada, que os professores não são bem pagos etc. Seria o caso de perguntar se incentivam a cultura de massa (claramente incompatível com o cultivo do conhecimento) porque ganham pouco, vingando-se assim nos aluno pelo baixo salário que recebem. Creio que o desamor que esses professores incentivam em seus alunos, através desses maus exemplo, são muito mais nocivos que os salários baixos, e para isso nunca os vi fazerem greve. O primeiro passo para a melhoria da educação é o amor ao conhecimento e à verdade e não o dinheiro que se recebe para dar aulas, embora um bom salário nunca deixará de ser justo. Mas não vejo como isso possa acontecer, enquanto na sala dos professores imperar as conversas banais, a televisão, as revistas da Avon, e outras coisas que vejo acontecer todos os dias.
            Os grevistas também interferem na liberdade alheia quando querem obrigar as pessoas a apoiarem as suas greves. Isso gera vários problemas, pois não é crime alguém estar satisfeito com o salário que tem e por isso se recusar a aderir a uma greve, mas na cabeça de muitos insanos, você é obrigado a estar insatisfeito senão estará prejudicando todo o conjunto, é a filosofia do “fura greve”. A liberdade fica então comprometida, pois discordar é ser injusto. Se fosse algo claramente criminoso eu até concordaria em interferir na liberdade, como por exemplo no caso do aborto ou de um assaltante, mas em algo tão nebuloso quanto uma greve, que podemos ter vários motivos para ter dúvidas, onde há tantos grupos em busca do poder, onde há tantas ambiguidades, não vejo problemas em não apoiar, acho até que não se deve apoiar, até se ter certeza do que está acontecendo e ter certeza de se estar agindo pela justiça. Malfadado mundo esse nosso! Onde o crime covarde que é o aborto gera polêmicas e dúvidas e as greves são vistas sempre como absolutamente justas.
            As greves também comportam o problema de darem ensejo a muitas desordens e subversões inúteis, obviamente os esquerdistas não entenderão minha crítica, afeitos que são a qualquer tipo de subversão enquanto não estão no poder, mas ao subirem lá massacram toda a voz discordante. Nas universidades os estudantes desocupados e inimigos do saber aproveitam qualquer pretexto para fazerem panelaços, atrapalharem as aulas dos outros com o rock maldito, quebrarem coisas, gritarem suas loucuras etc. São mais uma força usada pelos sindicalistas para ameaçar seus oponentes.
            Tomás de Aquino dizia que é melhor tolerar uma tirania moderada que tentar destituí-la, pois se corre então muitos riscos. Pode ser que não conseguindo vencê-la, a tirania fica pior; pode ser que o novo governante tema o destino de seu antecessor e esmague o povo ainda mais, e assim por diante. O poder dos sindicatos cresce nas greves e como podemos garantir que será um poder bem exercido? Quer dizer que devemos permitir  ao governo fazer tudo o que quiser? Não, mas devemos estar atentos que sempre quem reivindica almeja também o poder, porque acredita que poderá fazer melhor. Os sindicatos pressionando o governo conseguem sobre ele um poder de pressão, que depois pode virar acordos. Enfim, quem acredita numa solução política para os problemas da sociedade, não conhece a natureza decaída da humanidade.
            Na maioria das manifestações reivindicatórias sempre impera a falta de esforço de compreensão e a pressa de defender os próprios interesses, ou seja, impera a ganância e as paixões em detrimento da verdade. Nem sempre injustas, mas sempre perigosas demais para que o homem que se pretenda sensato apoie sem todo o rigor que um bom exame de consciência e da situação exigem.
            Esse problema coloca-nos outras perguntas: haveria um limite para as reivindicações humanas? Qual seria o limite? As pessoas que têm oportunidade de fazer greves sempre o farão, pois nunca haverá satisfação plena? Essas perguntas despontam à medida que vemos pessoas que possuem alto salário também fazendo greves. Nesse sentido seria de se perguntar se haveria um modo de satisfazer esse monstro grevista que de tempos em tempos se levanta para ser aplacado, pois se o governo fosse satisfazer o que cada um desses grupos acha justo o Brasil quebraria rapidamente seu orçamento, pois as reivindicações aumentam o nível de exigência, e a noção de justiça se torna cada vez mais distorcida. Quem lutou para conseguir um emprego que paga 1000 reais, quando conseguir esse emprego passará a achar o salário injusto, se seu salário aumentar para 1500 mais correção da inflação, ficará satisfeito por um tempo, mas logo achará injusto de novo,  e assim por diante. Ou estou enganado? A pergunta é: seria possível ao Brasil pagar as sucessivas reivindicações de todos esses grupos? As reivindicações têm limites? Portanto, você que apoia greves, pense nessas questões.
            As greves ainda podem acostumar os cidadãos à fraqueza de sempre pedir tudo ao estado, quando as situações adversas devem também ser enfrentadas com as forças de cada um.
            Um bom exemplo são os estudantes. Reclamam de que não há restaurante universitário, lá vai o governo e gasta o dinheiro público para fazer o restaurante; reclamam de que não há moradia, lá vai o governo e gasta o dinheiro público para fazer as moradias; reclamam então que não há dinheiro, lá vai o governo e cria bolsas. Quer mais paternalismo que esse? Esses jovens acabam se acostumando a uma choradeira sem fim. Pensam que as reivindicações acabaram? Quanto mais ganham, mais violentos e ingratos ficam, vejam o exemplo da USP. Talvez esteja correto ajudar os estudantes a terminarem a faculdade, o que quero apontar é a insatisfação e a ingratidão do ser humano. É bom lembrar que muitos jovens usam essa estrutura para se drogarem a maior parte do dia, pagando do modo mais abjeto aquilo que os que verdadeiramente trabalham lutaram para lhes proporcionar. É errado ajudar os jovens? Não. Mas é preciso enxergar que aqueles que reivindicam também podem aproveitar mal os benefícios, também podem fazer mal uso, também podem virar folgados. O que está errado nessa história é o fato de sempre colocarmos a culpa nos outros e querermos sempre achar que a sociedade é obrigada a nos dar tudo; também está errado ficar se enxergando sempre como o oprimido, quando somos muitas vezes o próprio opressor. O estudante que faz panelaço, fica bebendo no bar em vez de estudar, atrapalha os outros e gasta o dinheiro das bolsas (diga-se dinheiro de quem trabalha, que é o que ele não quer fazer, sob o pretexto de dedicar-se inteiramente aos estudos) fumando maconha, é um dos opressores da sociedade; o grevista que fica jogando baralho, ouvindo música podre e ostentando um ócio imoral para provocar é também o opressor. Façamos primeiramente uma greve de fome contra nós mesmos.
            Não é de se espantar que nessas situações nunca haja espaço para exames de consciência, pois o indivíduo se apaga e acende-se a tocha febril dos ditos “interesses coletivos”, nada mais arriscado para a paz e a unidade social.
            É também revoltante que a coisa mais capaz de mover as pessoas em torno de uma luta são os interesses materiais. A moral se deteriora, os grevistas dançam vanerão na universidade, estudantes gastam o dinheiro público com álcool e maconha, professores incentivam músicas torpes, professores de universidade não dão aulas, governo do PT promove o aborto, militância gayzista oprime a sociedade, novo código penal parece lutar contra tudo que há de mais sagrado etc. Quantas faixas temos visto a esses respeito? Quantas greves? Quantas notícias na TV? Talvez nenhuma, talvez muito poucas. O Brasil vive um momento crítico. As greves por mais dinheiro, ofuscam qualquer revolta que poderíamos ter contra aquilo que realmente importa. Tudo isso porque se crê que não é a moral que renova e melhora a sociedade, mas sim os investimentos. Torpe falácia, que se verdadeira fosse tornaria os políticos os melhores trabalhadores. Você grevista, se ganhasse mais trabalharia mesmo melhor? Não há aí uma relação necessária como se costuma acreditar. O indivíduo trabalha bem essencialmente por seu caráter e apenas acidentalmente pelo montante que ganha.
            Termino aqui minhas considerações, na esperança de que alguém leia e possa melhor refletir sobre esses acontecimentos.