sábado, 17 de março de 2012

Áurea Crítica


Muitas vezes a "criticidade" é alardeada como o objetivo máximo da educação. Pergunta-se a uma professora do primário seu objetivo, logo responde com o clichê: “formar um cidadão crítico”, e assim também respondem a professora do ginásio, do ensino médio e também o professor universitário. Mas talvez não saibam o que é ser crítico, talvez por repetirem a palavra sem reflexão, tenham esquecido o que significa verdadeiramente ser crítico.
            Antes que eu cometa o mesmo erro, direi sumariamente o que entendo por criticidade. Primeiramente, um cidadão crítico analisa as coisas com imparcialidade, mas não permanece neutro para sempre: estuda amplamente as questões, discute-as, procura ouvir os vários lados, para então, prudentemente, tomar uma decisão que o orientará. Um cidadão verdadeiramente crítico, não tem a criticidade como um valor em si, usa a criticidade para buscar o que é melhor, o bem supremo, esteja este onde estiver; do contrário não passa de um insensato que critica por criticar e não para buscar o melhor. Por isso, o homem crítico é aquele que busca e vive pelo melhor. Para ser um homem crítico é preciso ter as armas que compõe a criticidade: inteligência, conhecimento, virtude. Pois a criticidade não se faz com ignorância e incompetência, mas com sabedoria, conhecimento e virtudes, portanto para ser crítico são necessários pré-requisitos de ordem moral, instrumental e cognitiva. Diante disso é possível dizer que a maioria dos professores de hoje não promovem a verdadeira criticidade.
            É preciso que desde o primário a criança aprenda a comportar-se segundo uma moral elevada, mas hoje quase ninguém sabe o que é isso: nem os pais, nem os professores, nem os que escrevem sobre educação. Estes últimos nem mesmo se envergonham de não saber nada sobre as virtudes que os antigos e os medievais nos ensinaram. Essa cegueira dos adultos deixa as crianças a mercê de uma educação moralmente miserável, e é exatamente aqui que começa o naufrágio da educação, porque não pode ser crítico, não pode sequer cumprir sua finalidade, aquele que não adquire essa moral elevada (não explicarei esse conceito, porque qualquer pessoa de boa fé saberá seu significado). A criança cresce tendo por modelos os ícones do lixo cultural que nos rodeia e a escola pouco faz para combater essa influência nefasta, pois os pedagogos que escrevem no país não param de dizer que devemos lecionar partindo da realidade do aluno. Os ideais morais estão de tal modo enfraquecidos que ninguém consegue falar deles com clareza e sem medo: falam de emancipação, de liberdade, de criticidade, conceitos grandiloquentes, mas que nada explicam e dos quais se colhe os piores frutos. A moral católica é categórica: nela não encontramos esses rodeios perniciosos que só desviam e fecham os nossos olhos. O cristianismo considera que a liberdade consiste em lutar contra os nossos vícios, amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos.
            Então eu me pergunto: por que não ensinamos isso aos nossos alunos? Os laicistas tremem de medo, e bradam: “não podemos, o estado é ateu, quer dizer, laico.” Sinceramente não consigo ver por que não ensinam a moral cristã aos nossos alunos, talvez tenham medo de que eles saiam por aí perdoando as ofensas e amando os inimigos. Enquanto insistirem em ensinar aos nossos alunos a penúria moral dos nossos tempos ao invés da moral verdadeiramente libertadora de Cristo, a educação continuará seu naufrágio, naufrágio esse do qual não sei dizer se é ou não intencional, embora por parte do demônio sempre seja.
            Outro problema no primário é a insuficiência no fornecimento de instrumentos básicos para o pensamento: leitura e cálculo. Falam tanto em estimular a criticidade e esquecem-se de que esta exige uma boa leitura e um pensamento racional desenvolvido.
            No ginásio, no ensino médio e na universidade, onde acontecem discussões sobre diversos temas, a imparcialidade é o fator menos visado. Ataca-se ferozmente e injustamente a Igreja Católica; esquecem-se de toda sua contribuição para a civilização; ataca-se Deus e a moral cristã; defende-se abertamente como livre de qualquer crítica a conduta homossexual e a liberação precoce da sexualidade etc. Tudo sempre a partir de um ponto de vista anti cristão, sem nenhuma abertura para um debate verdadeiro. Todo nosso sistema educacional está pautado nas piores teorias pedagógicas. A pedagogia brasileira é alimentada ad nauseam por Paulo Freire, Marx, Foucault, Nietzsche, Freud, Marcuse etc. A parcialidade é flagrante em todo nosso sistema educacional, espaço para visões de mundo materialistas e anti-cristãs.
            Estimulam sem escrúpulos o Funk, o Hip Hop e outras culturas de massa, como se nossos estudantes não se intoxicassem com isso durante todo seu tempo não escolar. Bach não encontra espaço no ambiente escolar e nenhum tipo de cultura clássica e erudita ali é ensinado.
            Já faz uns trinta anos que essa avalanche tem causado uma verdadeira destruição em nosso sistema de ensino. As escolas estão mais bonitas, há merenda boa, existem computadores, mas esses e todos os elementos que os teóricos prometeram que iam causar melhorias na educação fracassaram, não por serem nefastos em sim mesmo, mas por estarem apoiados numa concepção maligna de educação.

segunda-feira, 5 de março de 2012

OS DOIS EVANGELHOS


Alguns comunistas estão tão convencidos de que são a última esperança da humanidade, que não raro passam a desprezar de modo equivocado as outras pessoas que tentam fazer alguma coisa pelo bem comum. Começam por desprezar os próprios companheiros de ideologia, mas seu maior desprezo é pelos “idealistas”, “filantropos”, ou “cristãos”.
            A causa desse desprezo encontra-se na crença firmemente arraigada que os comunistas possuem de que sua ação é a única baseada num método eficaz de análise da realidade histórica. Embora essa cientificidade eficaz tenha falhado tantas vezes, em tantas revoluções, eles nunca conseguem recapitular, alegando sempre que faltaram as condições objetivas para a efetivação do comunismo idealizado por Marx. E assim poderão tentar seu projeto até o fim dos tempos, pois sempre que falharem poderão alegar que o mundo ainda não estava maduro para receber o comunismo, ou então que a vanguarda falhou, ou que o proletariado não reagiu adequadamente. Enquanto houverem pessoas revoltadas e suficientemente presunçosas, esse movimento continuará, porque está calcado numa ilusão que vai aos poucos se estabelecendo através dos estudos marxistas: essa ilusão leva os indivíduos a notarem os problemas sociais, mas atribuí-los não a si mesmos, mas a uma estrutura, que aos poucos ganha vida própria na mentalidade do revolucionário. Com o tempo essa ilusão se traduz em ódio e revolta, que o revolucionário confunde com ardor pela causa ou amor pela humanidade.
            Essa ilusão se trai na práxis revolucionária. As seguintes contradições podem ser encontradas entre o discurso marxista e sua práxis:
1- Os marxistas condenam com bravura e indignação o imperialismo americano, as mortes no Iraque, a pena de morte; ao mesmo tempo que dizem que a violência e a luta armada é uma necessidade, sem a qual o mundo não pode melhorar. É claro que se um país poderoso oprime um país pobre (não tenho a mínima ideia se esse é o caso ou não dos USA em relação a outros países) causando mortes, miséria e dor, devemos nos indignar porque isso merece nossa indignação, mas quem aceita a violência e até a promove como instrumento de mudança, não tem autoridade moral para criticar aqueles que dela se valem.
2- Defendem a emancipação da mulher através da luta pela legalização do aborto.
3- São contrários a qualquer opressão, mas não se dão conta de que oprimir, ou melhor, matar um ser humano no ventre de sua mãe é a opressão mais covarde, abjeta e insensível a que pode prestar-se essa nobre criatura criada por Deus, chamada homem.
            Na esperança de levar a luz aos comunistas, evocamos muitas vezes a pessoa de Jesus Cristo, sua vida, suas palavras e suas obras. Mas eles se acham os cristãos mais autênticos, os benfeitores mais eficazes. Chegam a afirmar que Jesus era revolucionário. Embora neguem a Deus, a vida eterna, a ressurreição, os milagres, mesmo assim acreditam que são os cristãos mais verdadeiros, pois o lado sobrenatural de Jesus não importa, o que importa de Jesus é a suposta mensagem de ruptura, revolta e mudança social, mensagem que é distorcida até tornar-se verdadeiramente o contrário da autêntica mensagem cristã.
            Imbuídos dessa mentalidade, a maioria dos comunistas praticamente não se importa em ajudar o indivíduo em sua unidade concreta, pois isso não é eficaz e não modifica as "estruturas de opressão". Visitar um doente num hospital?! Para quê? Isso não é revolucionário, é manutenção do status quo. Portanto, eles não apenas são indiferentes às obras de caridade, são contrários terminantemente, pois elas arrefecem o ímpeto revolucionário do povo. Dessa forma ajudam a humanidade através da militância (essa sim verdadeiramente bondosa e eficaz); através dos livros que escrevem (pelos quais “a teoria ganha força quando penetra nas massas”); através de discussões etc. A ironia se dá quando justamente os materialistas, que anseiam mudar e transformar o mundo real, são os que mais se afastam do sofrimento humano em sua concretude. Ou seja, na hora de tomar o poder, certamente quererão ação concreta (dos operários é claro, porque a vanguarda não pode morrer, caso contrário quem comandará esse povo desvairado?), mas na hora de ajudar o próximo, preferem ajudar do modo mais abstrato possível. Quem não ama o próximo em carne e osso na sua frente, poderá amar a humanidade? quem hoje não divide com o proletário seu pão, sua riqueza, dividirá a riqueza social? Quem hoje se nega a dar uma esmola, a visitar um hospital, a ensinar um pobre, será realmente aquele que depois de tomado o poder, fará justiça beneficiando os outros?
            Mas tudo isso é justificado pela noção de eficácia: dar esmolas não é eficaz, ensinar um único menino não é eficaz, visitar doentes não é eficaz. Como o objetivo não é o bem em si, mas a transformação, logo o único objetivo válido e funcional é a tomada de poder.
            Não posso imaginar um exemplo mais concreto de falso- profetismo que a teoria marxista, onde tendo-se por pretexto emancipar o homem, destrói-se o homem. Porque em última instância o marxismo é a negação mais ardilosa do cristianismo, e Cristo veio para que todos tenham vida. Aquilo que nega Cristo nos traz morte.
            Cristo deu sua vida por nós, deu o exemplo da bondade mais perfeita e prometeu que nos libertaria do jugo do pecado se a ele nos entregássemos. Fazendo o bem, nos abstendo do pecado, praticando a caridade e rezando, estaremos trabalhando para a obra de Deus e contribuindo para a elevação do homem. Por outro lado, fomentando a revolta, o ateísmo e a revolução, estaremos traindo Deus e os homens. Busquemos primeiro o reino de Deus e a sua justiça, certos de que as demais coisas nos serão acrescentadas e saibamos ouvir o chamado de João Batista: “arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.”